Wednesday, January 31, 2007

O encanto do torpe

Soa a nome de filme fantástico, tipo o Labirinto do Fauno, mas não é. Torpe é a palavra que alguns dos meus amigos espanhóis usariam para me descrever.
Vestida para a ocasião, tentando combinar com o hotel de 5 estrelas onde estava, arruinei o disfarce a poucos minutos de ter entrado em cena. Ao ver-me deixar cair pela terceira vez os papéis que levava nas mãos, o rapaz sorriu e disse, encantam-me as pessoas trapalhonas. De facto, há encantadoras musas do torpe – a especialista Meg Ryan, a ocasional Michele Pfeifer – mas é uma moda que só perdura até aos próximos saltos agulha a transbordar de classe entrarem em cena. Torpe significa que passeias pela casa a dar porrada aos móveis, significa que já estás habituada a pagar a bebida que consomes e a que entornas, e que alguma vez já encontraste um membro teu preso num sítio improvável. Significa que não controlas o teu corpo, mas não só. Sabes que se abrires a torneira demasiado depressa a água vai espirrar, mas continuas a fazê-lo, talvez por não acreditar que possas influir sobre o resultado final, que será, indubitavelmente, molhado. É talvez resultado da descrença profunda na tua possibilidade de controlar o mundo. Mas é uma condição ainda mais profunda que isso.


Começa por arruinar o sonho de todas nós, suspeito, de ser uma femme fatale. A primeira vez que impulsivamente tentei dar um beijo a alguém, bati com a cabeça no espelho retrovisor do carro. Encantador, de facto. Mas a coisa piora. É que os meus melhores momentos – momentos de auge, em que te sentes capaz de comer a vida às garfadas - são quase sempre pontuados com a dura queda na realidade, que é como quem diz, no chão. Soube que estava apaixonada pela primeira vez quando ao ver o miudo dei um enorme trambolhão. Não é coincidencia. Estou convencida de que algo passa quando começo a pressentir um auspicio de felicidade; algo em mim transborda, as pernas crescem e os braços alongam, de modo que, do meu escasso metro e sessenta, passo a ter que controlar um enorme zepelim. Aviso à navegação, parece que vou aterrar...

A história do casaco verde fica para outra vez.

3 comments:

Diogo said...

Olha, o que nao é nada torpe é a forma como escreves. Continua. :)

E isso de ser torpe tem que se lhe diga... eu creio que nao sou muito, mas às vezes, naqueles momentos críticos, lá espeto com o cigarro na mao de alguém ou consigo calcar o mais improvável joanete. Creio que se trata apenas de um capricho da natureza, que me escolhe como cobaia permanente da Lei de Murphy... eheheh.

Esqueceste-te de dar o exemplo dos gelados que ganham vida própria e saltam para as calças e camisolas das pessoas!!! :D

Bem, beijo, soube bem ler-te antes das reunioes!!

Anonymous said...

"e que alguma vez já encontraste um membro teu preso num sítio improvável. "

Esta frase é mais provável que aconteça com um homem!! Eh eh!

ligia said...

reconheço-me tanto nas tuas palavras :)
pena que não escrevas mais sarita!

beijo,
ligia