Vestida para a ocasião, tentando combinar com o hotel de 5 estrelas onde estava, arruinei o disfarce a poucos minutos de ter entrado em cena. Ao ver-me deixar cair pela terceira vez os papéis que levava nas mãos, o rapaz sorriu e disse, encantam-me as pessoas trapalhonas. De facto, há encantadoras musas do torpe – a especialista Meg Ryan, a ocasional Michele Pfeifer – mas é uma moda que só perdura até aos próximos saltos agulha a transbordar de classe entrarem em cena. Torpe significa que passeias pela casa a dar porrada aos móveis, significa que já estás habituada a pagar a bebida que consomes e a que entornas, e que alguma vez já encontraste um membro teu preso num sítio improvável. Significa que não controlas o teu corpo, mas não só. Sabes que se abrires a torneira demasiado depressa a água vai espirrar, mas continuas a fazê-lo, talvez por não acreditar que possas influir sobre o resultado final, que será, indubitavelmente, molhado. É talvez resultado da descrença profunda na tua possibilidade de controlar o mundo. Mas é uma condição ainda mais profunda que isso.
Começa por arruinar o sonho de todas nós, suspeito, de ser uma femme fatale. A primeira vez que impulsivamente tentei dar um beijo a alguém, bati com a cabeça no espelho retrovisor do carro. Encantador, de facto. Mas a coisa piora. É que os meus melhores momentos – momentos de auge, em que te sentes capaz de comer a vida às garfadas - são quase sempre pontuados com a dura queda na realidade, que é como quem diz, no chão. Soube que estava apaixonada pela primeira vez quando ao ver o miudo dei um enorme trambolhão. Não é coincidencia. Estou convencida de que algo passa quando começo a pressentir um auspicio de felicidade; algo em mim transborda, as pernas crescem e os braços alongam, de modo que, do meu escasso metro e sessenta, passo a ter que controlar um enorme zepelim. Aviso à navegação, parece que vou aterrar...
A história do casaco verde fica para outra vez.
3 comments:
Olha, o que nao é nada torpe é a forma como escreves. Continua. :)
E isso de ser torpe tem que se lhe diga... eu creio que nao sou muito, mas às vezes, naqueles momentos críticos, lá espeto com o cigarro na mao de alguém ou consigo calcar o mais improvável joanete. Creio que se trata apenas de um capricho da natureza, que me escolhe como cobaia permanente da Lei de Murphy... eheheh.
Esqueceste-te de dar o exemplo dos gelados que ganham vida própria e saltam para as calças e camisolas das pessoas!!! :D
Bem, beijo, soube bem ler-te antes das reunioes!!
"e que alguma vez já encontraste um membro teu preso num sítio improvável. "
Esta frase é mais provável que aconteça com um homem!! Eh eh!
reconheço-me tanto nas tuas palavras :)
pena que não escrevas mais sarita!
beijo,
ligia
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